NAD T770 [receiver AV = descodificador + amplificador + tuner]
O NAD T770 é um descodificador / amplificador / receiver, alegadamente diferente, na linha do T750, já apreciado pela ÁUDIO. A sua suposta diferença, consiste numa preocupação explícita em não reduzir um aparelho AV, à electrónica de descodificação, e prestar a atenção devida à secção de amplificação.
A motivação para esta aposta da NAD, é trivial de perceber e de encontrar demonstrada, na práctica, em muitas propostas AV, dos mais diversos fabricantes. O caminho mais fácil será o de utilizar um amplificador AV "apenas" em modo estéreo, e perceber que os palcos recriados são [provavelmente] inferiores em credibilidade, dinâmica, envolvência, requinte, detalhe e rigor de posicionamento, relativamente ao obtido num aparelho estritamente estéreo.
De acordo com a NAD, o orçamento de muitos projectos AV acaba por ser demasiado orientado aos "extra", acontecendo um desvio inevitável daquilo de que deveria ser primário e prioritário. É efectivamente mais acessível oferecer ao consumidor um equipamento com 40 modos de envolvência DSP, mas uma estereofonia pálida, do que o contrário. E para afirmar o seu empenho em não calcar esse trilho, a NAD propõe pois uma série de receivers AV [rádio + descodificador + amplificador], preocupados com a musicalidade das reproduções. Essa série inclui os modelos AV711, AV713, AV716, T750 e T770.
Apesar do NAD T750 cumprir o propósito, a ausência de descodificação DOLBY DIGITAL integrada, dificulta-lhe o êxito, entre os consumidores que exigem essa característica, e não estão para adquirir um descodificador externo. O T770 vem resolver o problema, sendo uma evolução em dois pontos fundamentais: mais potência para todos os canais, e AC3 incorporado. De resto, há muitas parecenças. Por exemplo, o painél frontal é basicamente idêntico: um botão de volume muito preciso, um mostrador de cantos arredondados, e grupos lógicos de teclas para a selecção da fonte de sinal analógico, selecção da fonte de sinal digital, operação do rádio AM / FM, e controlos de tonalidade. Simples.
O conjunto de teclas para a selecção da fonte de sinal digital, é uma novidade. O T770 vai para lá do DOLBY PROLOGIC analógico, e ostenta, na sua parte posterior, entradas digital óptica [Toslink], digital coaxial eléctrica, e digital RF, sendo esta última normalmente necessária para leitores de Laserdisc [LD]. Estas tomadas, permitirão ao NAD descodificar, por exemplo, DOLBY DIGITAL AC3, actualmente o formato de som envolvente mais popular nos títulos recentes, suportados em DVD e LD.
A parte de trás desta máquina é muito interessante e mesmo invulgar. Não é fácil encontrar aparelhos que disponibilizem, entre entradas e saídas, 7 fichas S-VIDEO, quer pernitem distinguir entre luminância e crominância, para uma qualidade de imagem superior. Para lá das 7 fichas S-VIDEO, estão presentes outras tantas para vídeo composto [RCA].
Os terminais de coluna são de qualidade, e existem mesmo "a dobrar", para as colunas principais. Na sua proximidade encontra-se o clássico botão de "Soft Clipping", que, quando activo e em circunstâncias de pressões sonoras elevadas, pode oferecer alguma protecção às colunas de som, se acontecer algum pico musical que induza distorção.
Ainda relacionado com o descodificador de DOLBY DIGITAL que a máquina integra, estão dois conjuntos de tomadas: um deles oferece saídas pré-amplificadas para todos os canais identificados, incluindo o canal LFE [Low Frequency Effects], normalmente etiquetado de "subwoofer"; o outro são entradas que deverão ter origem num descodificador externo, e que permitem utilizar o T770, como se [apenas] de uma colecção de amplificadores se tratasse. Esta característica funcional do NAD, deixa bem evidente a sua concepção modular [descodificação + amplificação].
O rádio integrado no NAD T770 oferece RDS [Radio Data System] com RT [Radio Text], PS [Program Station] e PTY [Program Type], pelo que permite tudo o que é possível com este tipo de sintonizadores: recepção de mensagens de texto, identificação da estação e procura por tipo de programa. As estações podem ser memorizadas em 4 bancos de memória (A, B, C e D), cada um com capacidade para 10 sintonias. A procura de estações pode ser manual ou automática, e existem duas admissões para antenas FM.
No que toca aos modos de envolvência, tal como seria de prever, estão apenas disponíveis os "estritamente necessários", o que significa nenhum [estéreo], DOLBY PROLOGIC, EARS [Enhanced Ambience Retrieval System] e DOLBY DIGITAL. O modo EARS acrescenta informação posterior a audições estéreo. Todas as operações sobre o NAD podem ser visualizadas no televisor / monitor, graças ao sistema OSD [On Screen Display].
Eis algumas características técnicas do T770, de acordo com o fabricante:
Potência estéreo por (2) canal 80 W / 8 ohms
Potência surround por (5) canal 70 W / 8 ohms
Resposta em frequência dos amplificadores 3 Hz - 70 KHz
Resposta em frequência do tuner FM 20 Hz - 15 KHz
Dimensões (largura, altura, profundidade) mm (435, 156, 345)
Peso 15 Kg
O NAD T770 foi integrado com o seguinte equipamento de áudio e AV:
- colunas principais PARADIGM REFERENCE STUDIO 100
- colunas posteriores INFINITY REFERENCE 50
- coluna central CASTLE KEEP
- cabos de coluna STRAIGHTWIRE WAVEGUIDE-8
- cabos de interligação STRAIGHTWIRE MUSICABLE-2
- subwoofer ENERGY ES-8
- leitores de LD PIONEER CLD-S315 e PIONEER CLD-1850
- leitor de DVD PIONEER DV-505
- leitor de CD SONY CDP-997
"Gattaca" é um filme marginal. É um excelente filme, que despoleta as mais diversas reflexões, já [e apenas?] depois de visionado. Tudo se passa num futuro distante, e em cenários altamente estilizados, higiénicos, perfeitos e amplos… as decorações são de tal modo invulgares, sem que tenham de recorrer aos aparatos típicos, como paredes repletas de luzinhas ou corredores com robots, que o espectador fica absorto num mundo diferente, do primeiro ao último minuto, sintonizado no seu ponto de contacto com o personagem principal, e sem oportunidade para reflectir no turbilhão de questões que o argumento e o projecto do filme per si, de certeza que vão suscitar, assim que chegar ao final a ficha técnica.
Uma das primeiras invulgaridades de "Gattaca" é que sendo um filme de um grande estúdio [Columbia Pictures], não está recheado de acção, nem de efeitos especiais - aliás, o único efeito especial "regular", é o lançamento de naves espaciais… De resto, aposta-se efectivamente num enredo que gera um suspense permanente, suportado por um excelente trabalho de actores, e por uma banda sonora de Michael Nyman. É um filme que vai dar trabalho aos "críticos" hardcore europeus, que estão habituados a usar e reciclar a conversa pouco imaginativa de que grandes orçamentos só servem para grandes explosões.
Quanto à história propriamente dita, está-se numa sociedade onde desapareceu a distinção de classes que hoje se identifica. Em alternativa, acontece uma distinção genética… que divide as pessoas entre "válidas" e "inválidas", sendo "válidas" aquelas cujo material genético teve potencial para ser modificado, no sentido da perfeição, com vista à manifestação das melhores características: longevidade, inteligência, constituição física, etc… Aqueles que não puderam ser manipulados, ou por "defeitos severos" no respectivo património genético, ou por falta de orçamento dos seus pais para a "intervenção correctora", tornar-se-ão, os "inválidos", condenados a uma vida muito menos interessante, por exemplo, proibidos de algum dia serem astronautas… que é precisamente o sonho do "inválido" Vincent, o personagem principal, interpretado por Ethan Hawke, que eu reconheço, essencialmente de "Dead Poet's Society" [O Clube dos Poetas Mortos].
Esta breve descrição é incapaz de fazer justiça ao interesse / polémica de "Gattaca", mas será suficiente para compreender o áudio dominante no filme: paisagens sonoras Nyman, tão ou mais excelentes do que em "The Piano" [O Piano [de Jane Campion]], a temperarem diálogos diferentes, que acontecem em espaços normalmente agigantados. O mar joga um papel importante nas noites de "Gattaca", já que Vincent dorme a poucos metros da rebentação das ondas… e esse é tão somente mais um detalhe para que as experiências acústicas que este filme permite, sejam pouco habituais.
Imagine-se, por exemplo, um dia típico de Ethan Hawke, já depois do rapaz ter arranjado maneira de se fazer passar por um "válido": acordar em agitação marítima, conversar com o seu cúmplice de farsa sobre amostras de pele, unhas, cabelo e urina; deslocar-se em automóvel [eléctrico? A combustível fóssil, não é de certeza…] até à base de "Gattaca"; preparar a missão espacial que se aproxima, na companhia de dezenas de outros candidatos, numa enorme sala onde cada passo ecoa e cada qual resolve problemas no respectivo terminal de computador; assistir ao lançamento da nave espacial do dia; e, eventualmente, passar uma noite em recinto público com música ao vivo… Desta rotina, aparentemente desinteressante, nascem constantemente situações de suspense, em que Vincent pode ser descoberto…
No seu estilo muito futurista, "Gattaca" é uma excursão áudio por entre sons desconhecidos, espaços reverberantes, músicas frias [Michael Nyman], músicas quentes [a excursão nocturna], e diálogos originais, que acontecem a uma cadência mais relaxada do que aquela à qual Uma Thurman, Jude Law e Ethan Hawke estão definitivamente [mais] habituados.
Ora, tratando-se do NAD T770, lancei-me numa sessão de "Gattaca", plenamente convicto numa experiência de primeira! Já familiarizado com o NAD T750 [objecto de teste em ocasião anterior], igualmente apostado em bons desempenhos musicais, pode-se escrever que a minha fé na performance do T770 se justificava em absoluto.
A diferença principal para o NAD T750, reside na descodificação integrada DOLBY DIGITAL AC3, e "Gattaca" tem a possibilidade de ser ouvido precisamente nessa configuração. Não sendo um filme espectacular, no sentido de fazer exibições vaidosas de qualquer tipo de efeito, aquilo que se iria testemunhar no T770, seria o seu refinar nas [abundantes] situações "delicadas", como o "ruído" de um cabelo, por entre os dentes de um pente… ou o som de uma pestana, quando cai sobre uma mesa lacada (!)… ou a música de violinos, ao nascer do sol…
O T770 não se livraria de desafios mais trepidantes, mas era imperativo confrontá-lo com estas acústicas muito concretas, considerando a atitude NAD, que supostamente orientou o projecto. Desde cedo que diversas características do equipamento, faziam - efectivamente - lembrar o seu "irmão menor", o T750. Refiro-me, por exemplo, à facilidade [com as colunas utilizadas] com que o aparelho consegue "encher" de som, uma sala, mesmo com software calmo, como era o caso. "Encher" significa, neste contexto, "envolver", e "envolver" é agora empregue no sentido de acontecer uma reprodução áudio natural, cativante, capaz de abstrair o ouvinte da artificialidade das circunstâncias, e "integrá-lo" no universo de "Gattaca", dominado pelas tais salas techno' imponentes, onde quase tudo ecoa.
A música de Michael Nyman é uma constante em diversas introspecções de Vincent. É uma música concentrada nas frequências médias-altas, e parece evidente que poderá tornar-se incomodativa, a volumes elevados, em equipamentos menos nobres, principalmente quando coincidir com os diálogos… O NAD esteve bem e "coincidência" nunca foi sinónimo de "interferência".
Outra prova da educação T770 foram os momentos de sussurros… Há diversas situações, à medida que o filme se aproxima do seu final e o suspense cresce, em que, perante o risco de ver o seu "esquema" interceptado pelas autoridades, Vincent conversará com as poucas pessoas em quem pode confiar, em tom extra discreto… e poucas vezes diálogos "camuflados" se terão ouvido tão perceptíveis [e credíveis]! Claro que isto não é coisa da total responsabilidade / mérito da NAD, mas as pessoas por detrás do tratamento de som de "Gattaca", ficariam muito contentes se todos pudessem ouvir as cumplicidades de Ethan Hawke e Uma Thurman, com o rigor que este aparelho assegura.
"Starship Troopers" [ST] é o espelho de "Gattaca". Já referido em artigos de opinião anteriores, este é o filme onde podemos encontrar diversos pararelos com os vídeojogos. A espectacularidade de ST é extrema, o ritmo alucinante, os efeitos especiais [e espaciais] suportam todo o enredo; o áudio não podia ser mais artificial e fascinante, dos ruídos dos insectos gigantes, às explosões grotescas das batalhas…
ST é uma história, também ela de Ficção Científica, mas centrada nos argumentos clássicos, concretizados com a mais impressionante [e recente] tecnologia. Desta feita, o NAD T770 tinha ainda, em teoria, mais vantagens sobre o T750: para lá da descodificação AC3, que faz uma grande diferença com este filme, a potência disponível por canal aumentou muito. As colunas posteriores passaram de 30 W para 70 W de alimento… precisamente a potência dedicada a todos os restantes altifalantes…
Esta subida de potência seria inevitável numa máquina com descodificação AC3. O facto dos canais identificados serem absolutamente independentes, ao contrário do que se passa em PROLOGIC, em que há uma certa promiscuídade de informação, faz com que cada um deles deva ser tratado em harmonia com os restantes; isto é, as colunas posteriores podem agora dar um contributo muito relevante para a imersão do espectador na acção, e são frequentemente chamadas a intervir, pelo que a sua "antiga" missão de edificação de paisagens difusas, se sofistica demasiado, para se continuar a seguir a política da potência secundária. Em "Gattaca" o surround posterior não é imperativo, mas em "Startship Troopers", revoluciona totalmente a obra, e o NAD T770 demonstrou-o com categoria!
Disparos posteriores, que atingem [audivelmente] qualquer coisa "à frente"; explosões cataclísmicas que avassalam o subwoofer; uma banda sonora a xxx BMPs [Beats per Minute com 3 digitos J] , e uma variedade de momentos áudio' invulgares, foram todos reproduzidos com impacto, contraste, dinâmica, musicalidade, ritmo, coerência e volume, sempre altamente satisfatórios. O NAD T770 afirmava-se uma evolução óbvia, não só funcional, mas também qualititativa, em relação ao T750, que tão boas impressões me tinha deixado.
Chegava a altura de trocar o DVD pelo LD, e testar a tomada digital coaxial RF… com "Godzilla"… a n-ésima aventura de Gojira [o nome original, em japonês]. Nada de inesperado. Foi a confirmação da versatilidade T770.
"Godzilla" está mais próximo de ST, do que de "Gattaca", é evidente. Todavia, recorre a uma banda sonora muito mais "tradicional", e esse meio termo musical foi útil para observar o excelente comportamento do inglês, no carrocel mágico do grande lagarto, onde os rugidos pautam sequências RAP, e as pás dos helicópteros apelam aos médios baixos das colunas principais, sem exigir muito do subwoofer. As brincadeiras com AC3 são menos frequentes, mas as [muitas] cenas debaixo de chuva, fazem um uso interessante dos altifalantes posteriores, principalmente nas transicções de interiores para exteriores [de uma tenda, para a rua], ou vice-versa.
Todas estas características do NAD, manifestaram-se a todos os volumes, excepto os muitíssimo discretos, como seria de prever. A polivalência do T770 não é só em relação ao software e às circunstâncias de audição. O seu "traço" tende a manter-se, no geral, independentemente da fonte de sinal, o que significa que emissões de TV em PROLOGIC, ou LDs descodificados pela entrada digital óptica, serão [possivelmente] apreciados com a pujança que caracterizou o animal, com software AC3.
Há algumas séries de TV, transmitidas em Portugal, que o poderão ajudar a confirmar isso mesmo. Merecem destaque "Buffy, the Vampire Slayer" [SIC, domingo, muitos intervalos, desrespeito de horário, corte da ficha técnica, PAN & SCAN exagerado]; e "High Incident" [RTP1, domingo, apenas um intervalo].
O NAD T770 é um receiver AV, capaz de, entre outras modalidades envolventes, descodificar DOLBY PROLOGIC e DOLBY DIGITAL AC3. O aparelho fornece amplificação para todos os canais, e pode mesmo ser utilizado "apenas" como um amplificador estéreo muito competente, mercê de uma filosofia de projecto, interessada na qualidade da amplificação.
O seu design modular [descodificação + amplificação] tornam-no bastante future-proof, isto é, facilmente adequável a eventuais novas realidades que se venham a afirmar no mundo do Cinema-em-casa em particular, e do AV, em geral. Está ainda presente um tuner AM / FM, absolutamente recheado de funções.
A sua potência de amplificação e a grande qualidade com que assegurou todas as sessões AV em que se viu envolvido, fazem-no merecer uma forte recomendação.