Sennheiser RS-30 + RS-40 + RS-60

Introdução

Opinião

Resumo


1. Introdução

Sennheiser RS60 - acabei por ficar com um exemplar destes excelentes auscultadores. Utilizo-os de madrugada...

Auscultadores… para quê?

Durante muitos anos resisti à posse de auscultadores, após algumas experiências brevíssimas com equipamentos baratos, de fraca qualidade, quentes e pesados, que me fizeram questionar o que levaria alguém a ouvir música, naquelas condições técnicas… Lembro-me especialmente de ter experimentado umas aberrações plásticas, enormes, que ostentavam um cabo grossíssimo, em espiral, e que se estragariam em poucos dias, depois de alguns desempenhos horríveis.

Convenci-me de que uns auscultadores decentes estariam para lá do meu orçamento, e não fiz revisão às minhas crenças até há um par de anos, quando num ímpeto de consumismo, sem qualquer informação prévia, quase irracionalmente (?), ao passear-me pela secção de hardware musical de um supermercado, deitei mão a uns SONY MDR-CD170, que custavam exactamente 5 contos. Na altura, o preço do produto convenceu-me de que se justificava uma aposta cega, à imagem do que tantas vezes já tinha feito (e faço) com o mais diverso software (música em CD, filmes em DVD, etc…).

Esse momento fortuito revolucionaria em absoluto a minha atitude em relação aos headphones.

Se marcas como SONY tendem a carimbar um espectro vastíssimo de produtos, de consolas para vídeo-jogos, até cães robotizados que fazem a vez da real-thing (sem a desvantagem dos latidos, da comida, do cheiro e…), outras marcas, como a SENNHEISER, embora longe de de especializadas num só género de oferta, tendem a ser mais facilmente conotadas com um tipo de artigo. Estou convencido de que, a SENNHEISER é fundamentalmente conhecida pelos seus auscultadores.

No mercado de headphones, identificam-se duas correntes de evolução, nas quais continuará a haver investimento, no futuro previsível. Escrevo de tecnologias para a fruição sem fios e de design.

Os auscultadores são hardware musical singular, no sentido de que estão em contacto directo com os ouvintes. Repare-se que os utilizadores quase já não tocam os seus equipamentos… as colunas sempre estiveram longe, os amplificadores tratam-se pelo controlo remoto, e alguns leitores de CD têm gavetas para diversos discos, facilitando o adiar dos contactos físicos… Enfim, há um certa falta de carnalidade com a maior parte dos sistemas, o que talvez até contribua para o seu aspecto um pouco standardizado (tijolos pretos)…

Mas com os auscultadores (e com os telecomandos), acontece precisamente o contrário - há uma utilização física permanente que lhes pode assaltar o gadget appeal, em pouco tempo. De forma a adiar o inevitável, 1999 foi um ano em que muitos fabricantes puseram nas montras auscultadores de visual dinâmico… recorrendo ao truque das "partes alternativas", em que porções do equipamento são substituíveis por outras funcionamente idênticas, mas esteticamente distintas, por aplicação de novas texturas e / ou cores diferentes… Outras vezes, em vez de permitir a substituição de partes, o produto é simplesmente vendido em diversos estilos. Por exemplo, a KOSS e a AUDIO-TECHNICA, têm séries que só se distinguem pela côr.

Embora o aspecto seja importante para muitos consumidores, merecem mais atenção os trabalhos para libertar os auscultadores do tradicional fio de input. Um fio longo não é práctico e um fio curto é muito limitador. Com fio, a liberdade física para a audição nunca é plena. Os headphones remotos recorrem normalmente a uma de duas tecnologias: transmissão por infra-vermelhos e transmissão numa banda de frequências de rádio, entre os 400 MHz e o 1 GHz. A primeira opção é mais sensível a obstáculos físicos, mas imune a interferências eléctricas; a segunda opção é virtualmente indiferente a barreiras e distâncias até à centena de metros… mas, em teoria, está sujeita a interferências de funcionamento. Muito se tem feito para potenciar as vantagens e eliminar os problemas.

Este artigo é a minha opinião de três auscultadores da SENNHEISER: o RS-30, o RS-40 e o RS-60, todos sem fios, por ondas de rádio.

Todos estes equipamentos consistem numa pequena estação / base emissora e nos headphones, propriamente ditos. A estação emissora liga-se à electricidade por um transformador fornecido, e conecta-se à fonte de sinal, através de um cabo próprio, também incluído.

Esta "metade" do produto tem uma funcionalidade tripla: para lá do que realmente importa, que é a emissão do sinal, as estações servem de suporte de arrumação ao seu parceiro, e incluem uma baía para recarga da bateria dos auscultadores.

A emissão pode ser feita em um de três canais, seleccionáveis na base (433, 863 e 925 MHz), enquanto que a pilha de funcionamento se aloja na auricular direita dos SENNHEISER. Trata-se de uma pilha levíssima que, na práctica, não adultera a leveza dos produtos, ou a falta dela…

Nos modelos RS-30 e RS-40, a base emissora tem um único botão, que é o selector de frequência, mas no RS-60, surge uma segunda função, que é activação de um modo de audição surround, conhecido por SRS HP… da empresa SRS Labs (http://www.srslabs.com), ultimamente muito activa, precisamente em tecnologias para headphones - por exemplo, o Microsoft Windows Media Player 7 (leitor multi-formato, gratuito para os sitemas operativos Windows 2000 e Windows 98), permite fruição SRS Labs' WOW 3D, naquela que é a primeira manifestação práctica da "parceria estratégica" iniciada em Março de 2000.

O SRS HP é basicamente a mesma coisa: som envolvente a partir de apenas dois focos físicos… e consegue resultados interessantes…

De referir que uma qualquer base, funciona com um qualquer auscultador - podem-se ouvir os SR-60 a partir do emissor T30… e ouvir os SR-30 em SRS, a partir do T60… apesar das trocas de base não serem coisa que a SENNHEISER documente.

Também é possível ter quantos auscultadores se quiser, a sintonizarem a emissão de uma mesma origem, numa só frequência, o que é jeitoso… e perfeitamente expectável (afinal, quantas pessoas não ouvem em simultâneo a mesma estação de rádio e / ou televisão?).

À primeira vista, os SR-30, SR-40 e SR-60, só se distinguem pela côr de um certo elemento plástico (verde, lilás, preto, respectivamente), mas, infelizmente, as diferenças concretas são maiores e com mais impacto na fruição, do que o que prevê, a partir do aspecto.

O SR-30 é a mais acessível das propostas, a custo do contacto do utilizador com um material esponjoso mais quente e agressivo, e de uma sensação geral de maior peso / menor conforto.

O SR-40 é o meio termo das propostas opinadas, representando um salto de conforto em relação ao SR-30 e só devendo ao SR-60 por ter aurículas fechadas; isto é, toda a orelha fica em contacto com a esponja que protege a membrana emissora dos headphones.

O SR-60 tem aurículas abertas, em veludo macio e fresco (quer dizer, dissipa bem a temperatura), o que significa que só se sente um círculo de tecido, para lá de toda a estrutura ser mais leve.

Todos os auscultadores permitem controlar o volume de audição, a frequência de sintonia e podem ser ligados / desligados. Como a autonomia da bateria é de 4 horas, o botão de ligar / desligar prova-se mais importante do que seria de supôr, até porque, na práctica, nunca consegui 4 horas consecutivas de fruição…

Bem, mas e como soam?


2. Opinião

Sennheiser RS60 - a estação emissora. Há a possibilidade de seleccionar o canal de emissão.

Um auscultador sem fio tem potencial para mais utilizações do que um seu equivalente, com fio. No caso dos SENNHEISER em teste, tem-se um alcance de até 100 metros de distância, sendo pois possível praticar actividades como… ahmmm… andar de bicicleta na garagem e fazer jardinagem até à primeira árvore de fruto… em estereofonia remota! Sim, há melhores exemplos, mas cada qual saberá em que circunstâncias a ausência de amarras lhe será mais conveniente, para lá de que nestas coisas, não só se satisfazem necessidades presentes, bem como se abre caminho para utilizações proveitosas não previstas.

Eu gostei de utilizar o meu PC a volume incondicional, de madrugada, e de ouvir rádio na cama, com o tuner na sala. Mas a utilização mais expectável e talvez mais comum que muitas pessoas fazem de headphones RF (radio frequency), é a fruição de filmes, no silêncio da noite (se vive numa cidade, perguntará "qual silêncio?!", mas não me parece oportuno especializar a descrição), principalmente se há vizinhos e se a construção não tem isolamento acústico.

Antes de uma primeira experiência fílmica RF, suponho que se coloquem questões como "será afectada a inteligibilidade dos diálogos?", "sentirei os graves?", "estão comprometidas as pressões sonoras?", "perderei envolvência, relativamente a um sistema de >= 5 colunas?"

A inteligibilidade dos diálogos não é afectada; aliás, provavelmente, antes pelo contrário… A natureza focada e íntima dos auscultadores, facilita a percepção de detalhes, sendo natural que se ouçam sons, por vezes ignorados (não ler omitidos!) numa sessão típica, com colunas. Efectivamente, a porção do espectro sonoro consumida pela voz humana, resulta especialmente destacada em audições com (estes) headphones. Quanto à sua naturalidade, que é algo de totalmente diferente, agradaram-me os RS-40 e RS-60. O RS-30 não me desagradou, mas é obviamente "mais magro" e menos dinâmico do que os seus alternativos, podendo ser mais cansativo e até mais histérico, dependendo do software.

Mas não vai sentir os graves… quer dizer, vai ouvi-los e percebê-los, tão bem quanto o seu ouvido interno conseguir, mas vão estar ausentes sensações de trepidação e de punch estomacal, tão apreciadas por muitos. No meu caso, tenho esta coisa curiosa de "imaginar sensações", manipulado pelo que ouço, o que significa que faço associações com experiências anteriores, e "vivo" os graves mais baixos, (quase) como se reproduzidos (mais) mecanicamente.

A nível das baixas frequências, foi-me difícil distinguir os RS-40 e RS-60, mas foi fácil reconhecer a maior superficialidade do RS-30.

Curiosamente, por mais do que uma vez que achei preferível o grave mais frontal (menos envolvente) do SENNHEISER RS-40, que ganha em intensidade ao RS-60, menos espectacular, em estéreo.

O RS-30 ouve-se mais débil do que todos os auscultadores com fio que já ouvi, pelo mesmo preço, e inferior… Os RS-40 e RS-60 são inesperadamente generosos nas baixas frequências, e não será esta característica em particular a comprometê-los em relação a soluções com fio.

As pressões sonoras, claro que não estão comprometidas: com duas torneiras de som coladas às orelhas, é mais fácil pôr em agitação todo o ouvido interno… sendo pois maiores os riscos de lesão auditiva, para quem pratica excessos.

Quanto à envolvência, são impossíveis as precisões de localização em profundidade positiva (à frente do centro da acção) e negativa (atrás), conseguidas com bons sistemas AV, a funcionarem em modalidades como Dolby Digital e DTS, mas não se perde nada nos outros eixos / dimensões.

A competência de localização destes auscultadores é fundamentalmente a mesma, se esquecermos o modo SRS do SR-60. As diferenças que se ouvem, resultam da dinâmica e da neutralidade dos respectivos diafragmas, de efeitos já expressos noutros parágrafos. Assim, por exemplo, o SR-30, menos dinâmico e menos baixo, vai parecer menos envolvente ou menos sólido na sua estereofonia, não porque posicione a informação de forma diferente, mas antes porque reproduz menos informação.

O modo SRS não é avassalador - o SENNHEISER SR-60, sente-se realmente de "braços maiores", quando abraça em SRS HP, mas a eficácia espacial do efeito varia de software para software. No melhor caso, teremos qualquer coisa que se ouve como Dolby ProLogic; no pior caso teremos um estéreo que exagerou um nadinha no horizonte. Em todos os cenários, temos uma realidade aprazível, acolhedora, até neutra no que é nuclear, um tanto artificial nos extremos sonoros, mas saudável e ágil, em geral.

Os SENNHEISER SR-40 e SR-60 são bons auscultadores para música, e polivalentes o suficiente, para entusiasmarem a fruição de um filme estéreo. Infelizmente para o SR-40, os 180 minutos de duração de algumas obras são um claro abuso de conforto, mais pela temperatura nas orelhas, do que pelo peso.

Detalhe da auricular do RS60.

O SR-60 é assim um vencedor - não só é a escolha natural, de entre os modelos opinados, mas também é uma opção inteligente, em absoluto, de entre todos os headphones de que tenho experiência: o seu ponto mais surpreendente é a determinação em baixa frequência; é bastante competente em detalhe, dinâmica e transparência, sem esquecer um conforto de utilização invulgar, complementado com a liberdade que a transmissão RF permite.

O modelo SR-40 é outra proposta competitiva, que todavia não acho confortável.


3. Resumo

Os SENNHEISER RS-30, RS-40 e RS-60 são auscultadores sem fio, por tecnologia de rádio frequência, que podem ser usados até 100 metros de distância da respectiva estação base.

Estes são auscultadores estéreo, e estéreo + surround SRS HP, no caso do RS-60. Dois dos modelos em teste são competitivos, mesmo em relação ao mercado dos headphones com fio, e um deles merece mesmo ser aconselhado em absoluto. Todavia, se o cabo de ligação à fonte de sinal não o incomodar, alerto que há algumas propostas mais capazes e mais acessíveis.