Choça & Books

1. O Rastilho

Adrian Mole fez no passado dia 2 de Abril de 1994, 27 anos.

A barba rarefeita e esteticamente discutível, com que resolveu ocultar as marcas de uma guerra secular contra acne, desapareceu pouco depois do seu emprego no Ministério do Ambiente. Dois anos volvidos, com uma experiência de vida alargada, embora ainda amargo e pessimista, por natureza, Adrian está empreendedor, como nunca o vi!

Ao que soube, fui a única pessoa, que não é seu familiar (muito) próximo, a escrever-lhe um postal de parabéns! Acho que é o mínimo de decência que se pode ter, depois de ele próprio ter sido o meu único contacto com o exterior, na minha época da choldra. Na choldra sentimo-nos muito sós...

O postal dizia assim:

Moley! Sei que estás a viver com uma blackie! Então, sempre são como dizem? (Desculpa aqui o Baz, mas sabes como a linguagem ordinária é a minha imagem comercial!)

Sabes Moley, o outro dia estive a reler uns poemas que me enviaste lá para a choldra, e pela primeira vez, apercebi-me que tens quase tanto futuro como eu, no fascinante mundo da literatura elevada! O que te falta é só empregares palavrões porcos, de vez em quando!

Tenho saudades da época em que a malta corria à latada os chinos, os spaniels e os outros emigras! Sabes? Deviamos encontrarmo-nos um dia destes, nem que seja só para eu conhecer a tua blackie!

Abraços: Barry Kent (Baz)

P.S.: Parabéns pelos teus 27 anos!

A blackie do Adrian chama-se Jo Jo. Não é propriamente daquelas 100% melanina, em que a única coisa branca que parece haver, são os dentes. É até uma molata muito interessante, atraente e boa faladora. Um grande empreendimento do Moley!

Conheceu-a num curso qualquer, para escritores. Eu disse-lhe que o melhor curso de escrita que pode haver, é ir para a prisa, lidar diariamente com os drogados da cela ao lado e ouvir durante meses as ameaças de sodomia do grandalhão do bloco: são ocasiões em que o cérebro tem obrigatoriamente de fugir daquele espaço físico, projectando-nos numa dimensão agradável: no meu caso costumava ser cenários violentos, de perseguição a chinas e spaniels!

A blackie compreendeu a minha degeneração! Afinal, que fuga seria de esperar de um filho da nação, um dia suspenso por vestir a Union Jack, outro dia preso por vagabundagem e distúrbios, só por não ter emprego?!

Prometi ao Adrian que iria ler e opinar sobre um manuscrito seu, de 500 páginas, intitulado de Diary Of the One Who Opened the Pandora Box. Não lhe perguntei, mas suspeito que a Pandora do título esteja relacionada com aquela cavalona ninfomaníaca, com quem ele namorou, durante todo o liceu! É uma bezuga girosca, essa ninfo! Conheci-a intimamente no dia que publiquei o meu primeiro livro, logo depois de sair da choldra!

É pena o Moley nunca ter tido sorte com as miudoskas.

Compreendi o nome da Jo Jo, no dia em que fui devolver o manuscrito ao Moley. O Adrian não estava, maneira que, perante uma recepção de Jo-Jo-encalorada, os acontecimentos se precipitaram logo ali, na cama do meu ex-rival, ex-amigo-recente e actual inimigo mortal...

O mais correcto seria a Jo Jo chamar-se Mô Mô, por ter passado o tempo a esvaír-se em "more, more", com sotaque do Congo (môr, môr...).

É claro que tudo isto são questões secundárias, na medida em que o Moley, nos apanhou em flagrante! A Jo Jo guinchava tanto, que um batalhão de Arnolds Schwarzennegers poderiam ter subido as escadas de madeira apodrecida da pensão, sem que eu os ouvisse!

Pior ainda é que o Moley já não tem o metro e meio que tinha, na época em que eu lhe cobrava 5 pence / dia, para não o sacudir pelos pés. Ainda mais terrível é que ele deixou-me entalado na blackie, sem dizer uma palavra, o que é muito mau sinal!

2. A Declaração de Guerra

The Sun - Sunny News 4 the Day

(...) Barry Kent, ex-presidiário, escritor emblema da juventude tachteriana, foi ontem selvaticamente agredido por um bando "multi-étnico", de acordo com testemunhas. Baz, conforme sempre assinou, para lá de escoriações várias, perdeu os dentes incisivos e fracturou o braço esquerdo, em resultado da agressão (...) Baz, contudo, está livre de perigo.

3. A Guerra

Diário secreto de Adrian Mole, aos 27 anos e 1/2

Os sacanas dos chinas e spaniels a quem paguei até ao meu último pence, para arrumarem o Barry Kent, depois de apertados pela bófia, confessaram tudo!

Depois de apenas um trimestre na choça, em que escrevi The John Majorian’s Femme Fatales, in Black & White, transformei-me no maior fenómeno de vendas do Reino Unido. Nada mau, para quem só tinha recebido até agora, algumas cartas de rejeição da BBC!

Embora a white femme fatale do livro se chame Pamela, a Pandora acha que é dela que eu escrevo, achando-se lisonjeada por isso! Foi a Pandora quem pagou a fiança.

Numa coisa o Barry Kent tinha razão: a choça vale mais do que qualquer curso para escritores! Veremos agora o que é de maior valia: se um trimestre de prisão e uma aptidão natural para a prosa, ou se um ano de choldra e uma grande falta de nível, genética.

The John Majorian’s Femme Fatales, in Black & White lidera o mercado livresco londrino, mas o último livro do Baz - Why do Spaniels vandalize UK? -, espreita já em nono lugar...