O Poço Infernal
- Mundo cão! (porquê cão? afinal, não é o cão o "melhor amigo do homem"? Pá! Tu com esse buraco, e ainda reflectes no que praguejas?!)
Olhou e deu com a carteira aberta, desconjecturada, castanha de pó e terra, cercada pelos horários dos comboios, que se tinham liberto; com a nota de quinhentos paus, quase a voar e com a fotografia tipo-passe do ex-namorado, entranhada entre o asfalto e um rolinho de merda de cão, já cinzento e duro. (melhor amigo... ah ah! Ai que me dói tanto, porra!)
- Miguel! Meu, leva-me ao hospital! Vá lá! Não me podes deixar assim...
Mas o Miguel já dava à ignição do Mini Morris, de olhar vítreo, esgazeado, de cérebro branqueado. A única coisa em que pensava era cavar dali, o mais depressa possível! A cabra da Paula berrava de dores - não havia meio de morrer! - e o automóvel teimava em não pegar! Insistia na ignição, sempre esperançado de que a relíquia pegasse e calasse o mundo, com o seu escape roto, há que meses, tipo-Devil, como gostava de enbarretar os pretos lá do bairro!
- M-I-G-U-E-L!! Tu não bazes, meu CORNO!!
Fechavam-se umas janelas, apagavam-se umas luzes, começava a ouvir-se o burburinho das habitantes cretácicas e a Paula continuava a guinchar, com ambas as mãos, vermelhas que nem a bandeira do PCP, a agarrar-se ao pouco do intestino que ainda lhe sobrava, mas que lhe escorria do buraco na barriga, para a foto do ex-namorado, na direcção das fezes secas.
O Mini Morris pegou, peidando a parca cilindrada pela panela do escape, calando todo o demais burburinho. Miguel engatou, calculou mal o espaço que tinha para ir de marcha-a-trás e, depois de cruzar em largura toda a estrada, enfeixou-se na porta traseira lateral dum Alfa 164.
A Paula era uma desgraçada! Mãe aos dezasseis anos, pariu um deficiente mental, que lhe custou muita tripa! A criança nasceu de cú, enrolando-se, após roptura do útero, no intestino grosso da progenitora. Para que o recém nascido não morresse de asfixia, a equipa médica abreviou em quatro metros o aparelho excretor da adolescente, criando-lhe complicações para toda a vida.
Desde o dia em que foi mãe, que Paula passou a ter dificuldades em controlar as suas funções de excreção sólida. Recordava-se particularmente da noite em que "engraçara" com um fulano da universidade, na discoteca, deixando-o "seduzi-la" até ao respectivo apartamento. Era a primeira vez, desde a maioridade, que ia ter sexo, sem se prostituir.
O rapaz, já terceiro-anista, convencido de que o resto do mundo pertencia abaixo dos seus pés, despediu-se dos amigos - para que vissem - apalpando o rabo de Paula com tanta energia e tusa, que a penetrou no anûs com o algodão das cuecas! Depois, ainda piscou o olho aos companheiros, que o brindaram com os copos de cerveja que seguravam nas mãos viscosas, desde o início da noite! Celebrava o troféu!
Tanto festim, para depois Paula lhe fecar em cima, logo no momento em que ele estava por baixo, rejubilante por finalmente ensaiar aquela posição Kama Sutraiana.
O pára-choques do Mini Morris, não era daqueles em plástico, nem tão pouco modelo europeu, sem protuberâncias agrestes: uma vez espetado na chapa da porta do Alfa 164, não mais se quis desagarrar!
A cilindrada era pouca, mas a adrenalina era muita, tanta que Miguel não descansou de fazer roncar, chiar e fumar, a única coisa que tinha herdado do avô, até rebentar com a porta do outro carro, arrastando-a estrada fora, lançando fagulhas, pela fricção.
Paula ficou abandonada, agarrada às tripas, a perder sangue e porcaria, pelo grande buraco, que o balázio do polícia lhe tinha aberto, mesmo no meio da pança!- Miguel! Meu grande porco... - Vociferou, mergulhada em espasmos de choro e convulsões pré-hipotérmicas. O sangue não parava de escorrer, abrindo um ribeirinho de vida pelo negro da estrada, a descer, desaguando na fotografia do ex-namorado, que lhe tinha feito o filho, que tinham abandonado à Santa Casa. As fezes secas, que impediam a foto de esvoaçar, começavam a beber do pequeno caudal, mudando de côr, começando a fazer lembrar o corpo dum gajo morto à pancada: roxo e branco, inchado e ressequido.
Eram quatro da manhã da noite de ano novo de 1995 e supostamente não haveria vigilância policial a sítio nenhum, naquela madrugada! Mas havia. O Miguel até já tinha emborcado 100 mocas em dinheiro, enquanto ela procurava mobiliário de escritório que valesse a pena, quando o sacana do super-homem deu com eles! Um polícia, mesmo daqueles com ar de chaparro, corajoso que nem um estúpido, gritou-lhes logo que "estavam quilhados", "que o melhor era estarem quietinhos, enquanto ele pedia reforços".
Com os nervos, Paula descontrolou as suas funções básicas, gritou, distraindo o super-homem; Miguel, grande consumidor de ficção americana, atira-se ao bófia, leva um tiro na perna e, ainda antes de navalhar o outro, na traqueia, não lhe evita o disparo, certeiro e fatal para Paula. Foi ouvir o silvo da bala e, logo a seguir, uns ruídos todos orgânicos - Paula, que parecia ter ganho uma cauda para a frente, tinha um buracão na barriga, enquanto, espantada, ainda sem perceber bem, segurava coisas que por ali espirravam e que eram o seu baço, músculos e intestino! Miguel soube logo - a gaja estava morta!
Fugiu para o carro, cego com os acontecimentos, perseguido por uma desgraçada que nunca tinha tido sorte em nada, mas que insistia em viver e assombrá-lo como uma praga bíblica!
Paula já não viu o abútre: ali o mendigo do jardim Cesário Verde, indiferente ao cheiro e ao cenário-talho, recolhia a nota de quinhentos e ainda meditava se a carteira valeria a pena.
Autêntica carroça locomovida por Pegasus infernais, o Mini Morris abria uma longa cicatriz por toda a avenida Fontes Pereira de Melo, arrastando um bisturi em chamas, que era a porta do Alfa 164.
Miguel, ao volante, ignorava o cheiro intenso a queimado, os semáforos vermelhos e os rostos maravilhados das almas penadas que vagabundeavam sozinhas, pelas primeiras horas de 1995. Eram todos uns desgraçados, como ele. Havia uns tão grossos que deviam julgar a porta em fagulhas e chamas ocasionais, como mais uma das celebrações pirotécnicas de ano novo!
Com os olhos ensopados de lágrimas, com a sensação estranhíssima de que era apenas mais um louco, desatou a apitar a sua carroça, lançando convites para um viagem de ida ao Inferno. Malditas recordações de Paula! Grande desgraçada! (olha ali um puta!) Com um grande protestar dos pneus recauchutados, o Mini imobilizou-se poucos metros à frente de uma fulana de cabelo oxigenado, calçada com umas botas pretas até ao rabo. A porta do Alfa 164 saiu disparada para um matrimónio violento com o que quer que colidisse.
A puta chegou-se ao carro.
- Fazes tudo? - Perguntou Miguel, correndo o vidro, do lado do passageiro.
- Não me parece que possas cobrir a parada, lindo... - Miguel saca dos 100 contos, muito organizadinhos, num maço de dez notas de dez, e a oxigenada reconsidera - ...por esse maço, fazes-me o que bem entenderes!
- É teu. Entra!
O cavaleiro e a amazona dos Pegasus, permaneceram em silêncio durante longos minutos. Barbara, a oxigenada, segurava o maço de notas, relutante em arquivá-lo na sua malinha, receosa de o deixar cair, com o baloiçar abusivo do Mini.
- Estás mesmo com pressa, lindo! - Não obteve resposta - Diz-me: como te chamas?
- Miguel. - Ouviu-se, depois de se descrever mais uma curva, no limite das possibilidades do automóvel. E era só o que ela precisava de ouvir; o rastilho estava ateado.
- Eu sou a Barbara, macho! Tiveste sorte em apanhar uma como eu. Sabes que nestes dias, só consegues drogadas ou velhas. Tiveste muita sorte. E eu também! Vou ser sincera contigo: nunca me pagaram tanto! Suponho que deves ser um gajo exigente...
Miguel ouvia Barbara, lá ao longe.
Grande estúpida! Fazer tudo, por 100 contos! Nem perguntava, para onde se dirigiam! Estava completamente cega pelo dinheiro. Assim como ele e Paula, tinham estado! Raça! Aquela noite tinha de ser o ponto de viragem! Aquela noite, tinha de assinalar o início de um novo Miguel: um Miguel iluminado, um Miguel com forças para se levantar do poço profundo em que fôra caindo, ano após ano!
E a que grande profundidade Miguel estava: um polícia morto, Paula morta, impressões digitais por todo o lado, o Alfa 164 de porta arrancada e a dívida para com o cigano...
Miguel acalmou os Pegasus, no terreno pedregoso que antecede a extremidade do Cabo da Roca. A estação sintonizada no rádio, deixava escorrer um oportuníssimo "the Summer wind, came blowin in with that sound...", de Sinatra. De facto, embora não fosse Verão, a brisa marítima, anunciava-se por silvos, embalados pela rebentação atlântica. Durante toda a sua vida tinha detestado Sinatra, ou qualquer tendência jazz, ou qualquer tendência erudita, ou mesmo qualquer música que não tivesse ouvido pela instalação sonora do hipermercado, aos domingos; mas, naqueles instantes, que ele sabia derradeiros, as outras músicas fizeram todas sentido. Apreciá-las era função da profundidade do poço.
- É aqui que queres fazer? - Perguntou Barbara - É frio... mas nós aquecemos...
- Farás tudo o que eu quiser, não é?
- Sim, farei o que quiseres, Miguel!- Respondeu-lhe ela, tirando a blusa, revelando um soutien negro, a combinar com as botas, e a mergulhar de imediato no colo dele, procurando a braguilha.
Miguel voltou a ligar o automóvel, sem que Barbara estranhasse. Nos trezentos metros que se seguiam, uma língua vermelha, de superfície argilosa, penetrava a liquidez fria e agitada do Oceano - um regozijo permanente que ia desgastando a língua, calejada nos extremos por rochas basálticas. A dificuldade seria essas rochas.
Para mergulhar no Inferno, bastaria soltar os Pegasus, transpôr os calos e mergulhar no suicídio, com passaporte garantido até Satanás!
- Barbara: o que vais fazer, é morrer comigo! Até a morrer sou porco!
- Quê?! - Espantou-se a puta, levantando a cabeça tão depressa que se aleijou no volante!
O Mini Morris fracturou todas as suas suspensões nos irrelevos basálticos, mas não se deteve! Miguel garantia o Inferno! O poço estava vencido!