O Sexo das Areias
De facto, eram como sofás. As dunas. O sol alto, e elas clonadas umas atrás das outras, por obra e muita graça da entidade criadora. Iguais e diferentes, tudo dependendo da escala a que as olhássemos.
A duna mais bonita estava decorada pela Sofia. Uma cachopa com pouco mais de metro e meio, sem atributos sexuais particularmente denunciados, mas tão cativante. Eu gostava de falar com a Sofia. Sempre aprendia umas coisas. Às vezes até falávamos de sexo. Ou de assexo, como ontem, dia em ela que me corroborou a propósito de, precisamente, dunas. É que os montículos de areia-mar que me queimam a planta dos pés são formalmente mais clones do que eu e ela alguma vez seremos. Dizem-se clones os organismos nascidos por reprodução assexuada. Não me parece que haja diferenças bio-morfológicas entre grãos de areia
Por outro lado, ao deitar, estava eu a pensar na mancha escura que o fato-de-banho da Sofia começa a deixar transparecer ocorreu-me que ela só podia estar a ser simpática. É que a areia não tem nada de bio. O Joaquim (o do pai que é emigrante) já vai no 10º ano e um dia ensinou-me que bio é sinónimo de vida («não tomes antibióticos. São anti-vida! Experimenta antes um cigarro »).
Na sexta-feira, véspera do fim-de-semana em que os avós iam vender o (bio) porco, voltei a ir à costa e voltei a encontrar a Sofia, desta feita feita com algumas colegas de turma, algumas muito mais crescidas, apesar da diferença de idades praticamente nula. Eu ia com o Manuel e ele não parava de me dizer que a Sofia estava com falta de hormona do crescimento.
Uns anos mais tarde, no terceiro semestre de faculdade, descobri que o Manuel tinha então focado uma das aplicações mais importantes da clonagem, cimentando as minhas suspeitas do efeito didático das tardes nas dunas.
Um conjunto de células derivadas de uma «célula mãe» comum, diz-se um clone. A maior parte das vezes, organismos clones são idênticos nas características hereditáveis, isto é, as codificadas no seu genoma, ou colecção de genes. Os genes são as unidades edificadoras dos cromossomas, no sentido de que compõem a sua estrutra central a molécula de DNA. Todas as células possuem DNA, de forma a saberem reproduzir-se, para fazer crescer ou reparar os tecidos que integram. Mas
todavia, a hereditariedade é um processo sujeito aos factores de evolução, sendo que as mutações são frequentes (na Natureza) e responsáveis por diferenças que a simples soma das partes não faz prever. Todos os gémeos idênticos (gerados a partir do mesmo óvulo), são clones perfeitos, caso não ocorram mutações.
Isto não significa que venham ao mundo seres vivos indistinguíveis, ao menos nas formas de vida elevadas. Se no reino dos «Procariotas» há reprodução por clonagem com geração de seres vivos rigorosamente idênticos, à medida que se evolui na complexidade biológica, para lá dos comportamentos intrínsecos, passam a existir comportamentos adquiridos.
Por outras palavras, no extremo evolutivo que os humanos representam, no caso de uma clonagem perfeita, não se garante a «obtenção» de homens ou mulheres absolutamente iguais. No máximo (hipotético) assegura-se corpos duplicados, mas nunca «as mesmas» pessoas, uma vez que somos essencialmente «sociais», isto é, a nossa parte «reflexa» ou estritamente genética, tem muito menor expressão do que a componente aprendida.
As investigações em clonagem ou qualquer outro assunto não deveriam sofrer quaisquer restrições. E não sofrem, por mais que se informe «as massas» em contrário.
Há aplicações sinistras e positivas para as diversas técnicas de Engenharia Genética. Consta que os EUA «fabricam» (há décadas!) alguns dos cientistas envolvidos em projectos «TOP SECRET». Recolhido o material genético «interessante», molda-se o «individuo» em aspectos chave como a auto-determinação, com o objectivo de fazer crescer alguém que se encaixe às mil maravilhas num regime militar e saiba actuar (apenas) mediante ordens. O mais provável é que isto não passe de um terrível rumor.
Certo, garantido, é que os mesmos métodos que poderão estar por detrás de aplicações menos éticas (ou, ao menos, menos populares), são empregues em propósitos muito nobres. A hormona do crescimento, a insulina e as proteínas antivirais são exemplos de produtos sintetizáveis em grande escala, graças à manipulação (massiva) de genes por técnicas de clonagem.
Se fosse hoje, a Sofia poderia ter crescido dos seus 150 cm.
Se fosse amanhã, não havia ninguém a morrer de SIDA.
E se não fossem as (eventuais) aplicações «sinistras», o que seria feito de metade da Ficção Científica do planeta? Só há vantagens na investigação ilimitada. A ciência não deve ceder a receios e já o devia ter aprendido em séculos de história. O que hoje nos parece inaceitável e não-ético, parecerá trivial e indiscutível aos nossos sucessores. O medo é inimigo dos passos-em-frente. O medo é o único perigo real a enfrentar.
Não vá faltar a electricidade, deixa-me cá clonar este ficheiro para o disco rígido