DÚVIDAS

Sábado à noite. Não é bem como a febre homónima, nem ele se chama Travolta. A noite vai alta e não podia estar melhor acompanhado: muitas cervejas e uma televisão. Está deitado e não consegue ver bem a apresentadora. A barriga volumosa, inchada como se estivesse grávido, absorve-lhe metade da panorâmica.

"Mau tempo em todo o país, temperaturas máximas previstas de…", e um trovão. A muito esforço balança o corpo e quase consegue fugir ao tremendo magnetismo dos lençóis. Mas falha e fica a contemplar a mosca sua amiga, no tecto há horas. Na sexta-feira, ao chegar a casa tinha tentado extreminar o insecto, mas perdeu-lhe o rasto, após o que esgotou as últimas energias num derradeiro telefonema.

"Agora não estou em casa, deixe a sua mensagem a seguir ao beep". Beep.

Deitou-se, bebeu, pensa que dormiu, e eis-nos chegados ao momento presente.

Sente um formigueiro na língua, sinal de que está com um hálito assassino. Ela tratava de tudo: do fio dental, do dentífrico em pasta, do dentífrico em gel, do elixir e das pastilhas. O hálito, pretérito perfeito, era um problema controlado. Nunca faltavam produtos de higiene na casa de banho. Estava bêbedo, mas mesmo que estivesse sóbrio não se conseguiria recordar da última vez que tinha sido ele a trocar o rolo de papel higiénico. Um homem de negócios não tem tempo para essas coisas.

Não tinha sido um trovão. Era o seu estômago. Como podia? Estava tão gordo que provavelmente resistiria a umas férias de nudismo no Antártico. Contemplou-se, peludo que nem um símio, depois aquela dilatação estomacal, e uns pés horríveis, ao longe, com unhas por limpar & cortar e dedos encavalitavos, por causa da "porcaria dos sapatos elegantes", como ela costumava dizer.

Mas não tinha sido sempre assim. Aos seus 20 anos era um fulano apetecível. Atlético, divertido, inteligente e muito vaidoso. Um homem no imperativo, um líder, como lhe diziam nas entrevistas. Estavam errados. Sem dúvida.

Uma entidade superior tinha castrado o abastecimento eléctrico. Chovia torrencialmente e cada gota soava destacada das suas gêmeas, naquele espaço despoluído de iluminação e ruídos artificiais. O Sol estava prestes a nascer, sem que alguma vez tivesse morrido. O mundo era um festival de sombras fúnebres e sons novos. Deus de todos, há quantos anos não olhava ele a madrugada?

Árvores fustigadas, mas em prazer. Milhões de insectos em actividade. Pardais nos ninhos, coelhos nos abrigos, latidos ao longe, o cheiro intensíssimo da terra molhada e o peso insuportável dos acontecimentos recentes…

Sem a certeza de ser capaz, ergueu-se. Sucesso. A madrugada e a chuva, a renovarem existências sem conta (este é o momento ideal para tomares consciência da tua insignificância). A sua vida, uma sequência de acontecimentos aleatórios, desgovernados, sem um propósito uno ou qualquer relevância efectiva. Buck Rogers poderia viajar do século XXV até hoje, riscá-lo do «cronograma» e tudo aconteceria, exactamente da mesma maneira: vestimentas côr-de-laranja, a extinção dos elefantes, o orgasmómetro e a Voyager perdida no quadrante Delta.

Ele não estava a mais, mas não fazia falta nenhuma. Só ela precisava dele. E do outro lado: beep…

De certeza?

Beep… beep…

"estou?"