Um feito português no futebol mundial

1. Surpreso

Depois de meia dezena de anos a exercer 'Engenharia de Software', não esperava ter um encontro com um projecto destes! Ainda agora olho especado, atónito mesmo, para a 'especificação', em função da qual devo prosseguir...

A 'especificação' que contemplo, não é da autoria de nenhum dos elementos habituais da minha equipa de trabalho. É uma 'especificação', que não o é. É uma folha, onde se descreve o que se pretende e como se pretende. Tecem-se umas considerações relativas à tolerância a faltas que o projecto deverá ter; fala-se de prazos de entrega, salienta-se a necessidade de um grande secretismo; há um contacto, via 'correio electrónico', e mais nada! Falta muita coisa, para tornar os papéis que tenho na mão, numa verdadeira especificação.

O que me pedem é O controlo remoto de uma bola de futebol! O que é diferente de UM controlo remoto. Pedem-me que projecte e implemente uma bola de futebol, que possa obedecer a estímulos com origem em qualquer uma de onze fontes emissoras. Onze. Tal como o número de elementos de uma equipa de futebol. E não é coincidência!

Cada fonte emissora, ou agente, estará dotada de um par sensor/actuador.

A unidade 'sensor' encarregar-se-á de recolher constantemente, informações sobre o agente: sua posição absoluta, em referência a certo sistema de coordenadas (campo de futebol); sua posição relativa, em referência a cada um dos elementos de um conjunto designado por friend (equipa do jogador); sua posição relativa a cada um dos elementos de um conjunto dito foe (equipa adversária); e valores indicadores do estado físico do agente, que incluem medidas das intensidades e forma dos contactos com a bola de futebol.

A unidade 'actuador' é mais abstracta e só surgirá na sequência de muito trabalho de processamento da informação recolhida pelos 'sensores'. O 'actuador' de um qualquer agente, não actuará somente em função dos dados recolhidos pelo 'sensor' desse agente, mas - isso sim -, em função dos dados recolhidos por todos os 'sensores' presentes.

Quanto à unidade central - a bola de futebol -, o princípio é o mesmo: existirá um receptor, que fará o papel de 'sensor', e um conjunto de pequenas possibilidades ('actuadores'), que tornarão a bola de futebol em causa, numa esfera muito especial. As facilidades requisitadas no projecto são três: grau de direccionalidade razoável e incremento/decremento da energia absorvida. A facilidade nada fácil, será a direccionalidade em tempo real - naturalmente que só me diz respeito o processamento informativo e electrónico de cada entidade; pormenores de implementação material, serão escoados para os senhores da Física e da Mecânica.

Tenho um ano para concluir o projecto.

2. Projecto Concluído

Depois de três centenas de dias a trabalhar muito para lá do saudável, consegui, em conjunto com uma pequena equipa de projectistas, parir algo de muito marcante; nem que apenas no sentido académico do termo - houve muito esforço nas áreas de Inteligência-Artificial e miniaturização!

A versão definitiva do projecto é uma equipa de futebol imbatível! Os movimento 'anti-natura' da bola estão perfeitamente suavizados e são insuspeitos! Os jogadores não conseguem chutar, senão com a força e orientação perfeitas! Vários estímulos cerebrais - sob a forma de quase inmensuráveis descargas eléctricas -, tornam os jogadores estrategas surpreendentes, no que toca ao seu posicionamento em campo! A bola é como que o décimo-segundo elemento da equipa: via ondas-rádio, é instruída a rolar de acordo com a trajectória e velocidade mais favoráveis! Enfim... é a telemetria no futebol!

3. Resultados Práticos

3.1 Quartos-de-Final

Hoje disputaram-se os quartos-de-final deste Mundial de Futebol de 1998. Na medida em que a equipa que equipei com telemetria, está ainda (e continuará a estar) presente na competição, tenho permanecido bastante atento às suas actuações.

Resultados dos quartos-de-final:

Brasil - Argentina: 5-1

Itália - Portugal: 0-4

França - Inglaterra: 1-0

EUA - México: 2-1

A 'minha equipa' continua a sua epopeia vitoriosa!

3.2 Meias-Finais

Resultados das meias-finais:

Brasil - EUA: 5-1

Portugal - França: 4-2

4. Sobre a Final

(tradução do que escreveu em editorial a prestigiada World Soccer)

Assistimos ontem ao jogo de futebol mais emotivo do século XX! A afirmação não padece de dependências temporais porque o jogo de que escrevo, foi precisamente o último jogo do último Mundial de Futebol, pré-segundo-milénio! Dificilmente se voltará a ver um espectáculo de massas como o que se assistiu ontem!

De todos os encontros a que pude assistir, ao vivo, ao longo da minha vida, só dois outros se aproximam, em carga emocional, desta final, deste Mundial. Mas aproximam-se pela negativa! O primeiro dos desafios em causa, foi o Honduras - El-Salvador, um jogo de qualificação para o Mundial de Futebol de 1970 que despoletou uma guerra fronteiriça entre as duas nações! A outra nódoa, mais conhecida, foi a final do Campeonato da Europa de 1985, disputada entre o Liverpool e a Juventus, com o resultado final de 200 feridos e 38 mortos...

Muito tenho eu de agradecer a esta Final! Até que enfim que a minha hierarquia de descargas adrenalínicas, vê o seu horrível topo substituído! Agora, em vez de pesadelos com futebol, vou - concerteza -, passar a ter sonhos!

Ontem não se mostraram quaisquer cartões disciplinares! Ontem marcaram-se 8 golos! Ontem não houve guerra de claques! Ontem, a dicotomia barbárie-nobreza, pendeu em absoluto, para a vertente nobre! Foram 90 minutos de virilidade e alta-estratégia! Terá sido um espectáculo tão gratificante para todos, que eu arrisco dizer, ter-se tratado de um jogo sem derrotados... o primeiro jogo sem derrotados?

Em campo, estiveram duas selecções unidas pela História: Portugal e Brasil.

Os brasileiros, diferentes de anos anteriores, altamente disciplinados, com menos rasgos individuais, mas com um sentido colectivo anormalmente elevado. Anormalmente! Conforme escrevi a propósito de todos os restantes jogos dos 'canários', esta selecção de 1998, parece, no bom sentido, um conjunto de marionetas, comandadas por um qualquer gigante, com elevado sentido estratégico, que as orienta, uma-a-uma, a todo o momento, na melhor direcção possível!

É desconcertante seguir as movimentações dos jogadores brasileiros, pelas câmaras aéreas:- parece que comunicam todos por telepatia, e que não conseguem falhar um passe-de-bola que seja!

Os portugueses, são o outro extremo! Por incrível que pareça, a única palavra que encontro para se adequar à equipa, é genialidade. Genialidade!

Se os brasileiros pareceram sempre 'marionetas' imperdoavelmente eficazes, os europeus seus adversários, também sem querer ser depreciativo, transmitiram-me a ideia de serem totalmente imprevisíveis! Uns loucos! Com um esquema de posicionamento em campo (apenas) aparentemente anárquico, e com explosões individuais, ou a dúo, ou a quarteto, os portugueses deixaram bem claro que em Futebol, ainda há lugar para novas metodologias... ou, no seu caso, lugar para a ausência (aparente) de método!

Ontem, a victória foi para os (aparentemente) não-metódicos! Uma suadíssima derrota infligida aos 'canários', catapulta esta selecção portuguesa para um lugar de referência neste desporto!

Depois de ver o que vi, não considero exagerado afirmar que os portugueses, fizeram a primeira grande-demonstração da eficácia do não-determinismo em Futebol! No seu jogo, nunca foram previsíveis relações de causa-efeito. No seu jogo, esteve patente como que uma aplicação permanente das teorias matemáticas do Caos!

Com o futebol mais 'non-standard' que já vi, Portugal leva para casa a cobiçada Taça de vencedor do Mundial de Futebol de 1998!

Parabéns Portugal!

5. Consequências

A 'minha' selecção, para minha grande surpresa, saiu derrotada. Os algoritmos da rede neuronal entraram quase todos em situações de excepção, face ao comportamento (não-computável) dos portugueses! Os 'meus' jogadores, só por si, foram incapazes de resistir à ofensiva Ibérica!

Estou bastante perturbado.

Desisti de evoluir o meu projecto de 'Telemetria em Futebol'.

Comecei a ler uns livros sobre 'Teoria do Caos'. Quem sabe, se para o próximo mundial...