O Rei da Selva

Ouve uma voz do fundo do corredor. Olha para trás, mas não está ninguém. Nunca está ninguém. As paredes frias e cremes são as únicas testemunhas do chamamento. Volta atrás e caminha ligeiro para a sala do chão em azulejos. Esperam-no o «Capitão América», a «Fairchild» e o «Homem Aranha». Prefere a Super-Heroína aos Super-Heróis. A «Fairchild» é linda e os outros são velhos.

Apesar dos seus 2 metros de altura e 150 quilos de peso, «Fairchild» é elegante e delicada nas formas. Só é discutível o cabelo ruivo. A tia tem um cabelo assim e não é natural. O que não é natural não faz sentido.

A porta de entrada fecha ruidosamente - há necessidade para uma retirada estratégica. Até à sala de estudo é apenas uma dezena de passos, mas a governanta Luísa intercepta-o. Está agora obrigado a mais exercícios de Matemática do que se tivesse cumprido o plano de estudo. O lanche está perdido! (grande coisa, aquela porcaria de leite fervido…)

Volta a ficar sozinho. Os colegas saem e ele, ovelha negra, ouve correr o trinco da porta que era branca e agora mais parece amarela, prendada de centenas de mãos menos limpas. Está tudo perdido. Respira fundo e lê desesperado a equação de segundo grau. Não percebe. Folhea os capítulos iniciais, mas não há maneira de se concentrar com o sol que rasga pelos cortinados e com a agitação do Fernando, cujo riso ecoa pelo corredor; «Fairchild» chama.

Da sala de estudo à liberdade não vão mais do que 3, 4 metros de altura e uma janelas lindamente ornamentadas por bordas salientes. O coração agita-se-lhe. A respiração acelera-se-lhe. Não há nada que o detenha.

Liberdade! A quinta do sr. Gonçalves por sua conta! Abriga-se nas ervas altas e torna-se um caçador. Adora gatos! Adora persegui-los, estouvado, a perder-se de si próprio, rápido, por entre rochas e relampejado pelas oliveiras que orlam a SUA selva. São uns felinos difíceis, ágeis e pequenos, muito adequados às aberturas nos muros de tijolo. A horta está organizada em níveis. Cada nível tem uma altura diferente, em escada. As perseguições são a subir ou a descer. A descer são mais emocionantes e o único perigo é o poço de água. A aproximação aos gatos deve ser feita com boas intenções. Há que estar plenamente (auto)convicto de que é só «para fazer uma festinha». Caso contrário, o animal percebe e entra em fuga antes de tempo, eliminando o factor surpresa. O gato deve sempre ser apanhado pela cauda e de braço estendido, para não arranhar. Por fim, basta largá-los no poço.

Era um tarde realmente quente. Ele que não suava muito, conseguia cheirar-se. E isso prejudicava a caçada. Em pouco minutos aparece o primeiro candidato. É um bicho de médio porte, muito rafeiro, cinzento e branco, magro e atento. Uns passos em sorriso, depois a sensação de que o disfarce não resulta, o momento de confusão do quadrúpede, em que este toma consciência de que vai ser perseguido e ZÁS, começa o espectáculo!

Não há nada como aquilo! Sentir o coração a bater tão forte, que palpita nos pés! Deixar de respirar em corrida! Ofegar por entre a vegetação e voar nos saltos de nível! VOAR metros, cair leve e rapidamente, sempre a grande velocidade; sentir as ortigas picarem as pernas, os joelhos a esfolarem-se na aterragem e as sarugas a entranharem-se nas meias! Uma delícia!

Mas aquela pedra não era suposta existir e eis um grande espalho… o rosto a afocinhar no lavrado, o sabor da terra poeirenta e uma grande dor em toda a boca… uns dentes partidos? Um queixo rasgado?

Silêncio. O dia em pausa. O universo parado, sem respirar. Que se lixassem as criancinhas esfomeadas, os povos em Guerra, as negociações de paz, emprego e concertação social, «esses malandros todos», como dizia o pai. Era a frase que mais se lembrava do pai. Se calhar, teria sido melhor aprender a fazer a equação de segundo grau… ou ter trazido a «Fairchild». CALMA!

Põe-se de pé, saboreia o próprio sangue, apalpa-se, vê se há dentes no chão e recea a cada sensação. O mundo recomeça a girar. O queixo está todo esfolado, mas a dentição e o maxilar inferior, permanecem intactos. A terra lavrada sempre foi muito macia. Mais uma victória para os felinos.

Já deve ser tarde e convém desinfectar as feridas. O Fernando vai ficar invejoso. Respira fundo e orgulhoso. Perde a jogada, mas não perde o jogo.

Está de castigo e é noite. Um dia também há-de viver a noite como vive o dia. Não pode ser na horta, que não está iluminada, mas pode ser a jogar futebol com os rapazes do bairro dos Plátanos, naquela praça a descer (e em brita). E talvez a tia lhe ofereça uma bicicleta pelos anos. Correr Portugal em bicicleta! Acampar algures e olhar o céu estrelado. Um dia tudo isso será possível!

Mas não amanhã… amanhã será dia de reprimenda; ocasião para voltar a ouvir a governanta Luísa explicar-lhe que «só com estudos ele será alguém», quando é tão evidente que mais ele não podia ser. Que mais pode um rapaz de 10 anos, que sempre que enche os pulmões o faz como se fosse a última vez?