DOR e MORTE NA TV
Sangue. No asfalto (como cantam os Mão Morta). Nos teus joelhos esfolados (tu, que és novo). Nas tuas gengivas (tu, que és velho). Naqueles dias do mês (como na publicidade). E nas tuas papilas gustativas, agora.
«Estão a arrear-me», pensas, mas já nem sentes a dor. A calçada portuguesa, agora salpicada dos teu glóbulos. Parece mesmo molho de tomate; e lembras-te do Fernandes, que tresandava a piadas sádicas, mesmo nos dias de missa. O golpe de misericórdia. Um grande biqueiro nos testículos. Finges que te dói, eles fingem que acreditam, mas já levaste tantos que nem os sentes. Que o diga a Patrícia, que bem se esforça. É um ritual. Biqueiros por todo lado, nada de puxar cabelos ou armas, depois o ponto-final-parágrafo-fim-de-capítulo; o abono de família em causa.
Ouve-los a fugir, como se estivessem receosos, mas a cidade é puta, e só faz por dinheiro. Ninguém levanta uma palha. Já ninguém vem à janela. Ou quase ninguém, porque a velha Julieta, gorda que nem as bisontes em alt.binaries.pictures.tasteless, já não se aflige com estas cenas; para ela é como se fosse na TV. Estás quase a desligar, mas é fácil topar-lhe os rolos de carne, em camadas, como nos folhados, estáticos, deliciados, sempre em processo de nutrição. Consta que suborna a neta para lhe comprar latas de refeições pré-cozinhadas, que nem se digna a levar ao lume, agora que é Verão. Off.
Acordas numa cama de hospital. Há uma televisão, logo em frente. Vem a enfermeira, uma estagiária desmamada, da época dos pigmeus. Mas meiga. Uns gestos doces, doces. Mas não sejas parvo!, só pensas assim por causa da porrada. A vida é realmente triste. A saída é só uma, por mais voltas que se dê no labirinto.
Diagnóstico: pontos no antebraço esquerdo, um hematoma antológico na perna do mesmo lado, o desaparecimento de mais alguma dentição e um olho negro, já a desinchar. Alta ao fim da tarde. Só mais umas horas de observação.
Que observação? A enfermeira some-se. Os médicos ausentam-se. Fica o alcoólico epiléptico da cama ao lado. Tem piada: não é a primeira vez que se encontram. Que ar patético, o dele. Vermelho como os ingleses que vêm ao Algarve, a testa malhada de tanta marrada, e um olhar triste, triste, que parece sincero. Mas é só falta de cerveja.
Fim de tarde. Liberdade suprema. O mundo a teus pés. Não tens responsabilidades, não tens dinheiro, não tens família, mas tens educação. A suficiente para teres consciência da tua marginalidade. Filmam-te sempre nas vésperas de Natal. «E dorme aqui há quantos anos?», «Mas não há ninguém que cuide de si?», «Ganha a vida a fazer o quê? A arrumar carros?». As respostas são uma perfeição: «não sei», «ninguém» e «nada, porque não adianta». Se o repórter for esperto surpreende-se com a justificação; se for um mercenário, faz umas caretas para o «operador de câmara» e conquista ele o carinho dos espectadores, para os quais tal até é conveniente, uma vez que no dia seguinte o «desgraçado» está recuperado e sorridente.
Mas não é Natal. E a ponte continua ocupada pelos bandidos da noite anterior. Grande coisa. O mundo é teu. Vais dormir onde calhar. A relva como colchão, o céu como lençol. Um lençol que não se suja. O vento trará a leitura. Há muita leitura.
O estômago já não se queixa. A Patrícia já não existe. É noite. A sociedade descansa; as formigas operárias reabastecem energias na lavagem cerebral da caixa rainha. E amanhã tudo se repitirá. Tudo, menos o sangue.
Finalmente, o fim.