Contagem Decrescente para a Solidão Suprema

Naquele ano de 2024, procedia-se à montagem do último módulo da estação espacial Pré-Mars. A Pré-Mars era suposta ser a última estação orbital na qual os shuttles de qualquer nação, com programa espacial, poderiam reabastecer, antes de se propulsionarem para o interior da nossa galáxia, via órbita do planeta Marte. A estação estava ainda predestinada a tornar-se na primeira colónia humana no Espaço.

É claro que os emigrantes para a Pré-Mars, não seriam pessoas quaisquer. Quando em 2026 a estação se torna-se perfeitamente habitável, os primeiros inquilinos seriam cientistas de inquestionável robustez mental, encarregues de sintetizar, na ausência de gravidade e de vida microbiana, compostos químicos vários, capazes de revolucionar todas as áreas do saber: em Medicina passariam a ser viáveis os catalisadores da reprodução de neurónios, em Física & Química, passariam a ser sintetizáveis novos e variadíssimos aglomerados, e em Informática, os super-condutores à temperatura ambiente, tornar-se-iam realidade!

Tendo em conta o carácter pioneiro da Pré-Mars, e das próprias técnicas de construção envolvidas, como em muitas outras obras colossais, alguns dos responsáveis directos pela construção, perderam-se...

Arthur Finningan, saiu com o seu Jet-Pac da escotilha do vaivém 4Mars, depois de mais uma comunicação azeda com a esposa. Ele não passava de um ‘pedreiro do século XXI’, como lhe chamava, com desdém, o próprio irmão! Sem a força interior que se descobria em alguns dos seus colegas, Arthur começara a acusar umas incomunicabilidade e irascibilidade pouco convenientes ao regime de trabalho de equipa e isolamento, em que vivia.

Por essa altura, no entanto, a sua fácil irritabilidade só se manifestava para com aqueles que lhe eram, ou deviam ser, mais queridos. A começar pela própria esposa!- Ao fim de apenas um mês de vida extraterrestre, qualquer ligeira incompreensão que ocorresse numa conversa entre os dois, despoletava uma urticária palavrosa, pouco agradável a qualquer deles!

Infundadas e inpensadas acusações de infidelidade, dirigidas a Lisa Finningan, tinham guilhotinado a comunicação do amanhecer. O dia (que em côr não era diferente da noite), parecia perdido.

E estava perdido.

Poucos minutos depois do início da labuta, num regresso corriqueiro à nave de material, Arthur notou uma inflexão de trajectória, habitualmente rectilínea. Uma brusca explosão de actividade no Jet-Pac, disparou o ‘pedreiro’ centenas de metros para lá da área de segurança.

Em rota desgovernada, a boa velocidade e a rodar em torno de um eixo imaginário que poderia cruzar o seu umbigo, o sólido humano, travou instantâneamente de encontro à torre #1 da Pré-Mars - o primeiro módulo da construção.

Com o impacto, Arthur Finningan desmaiou.

Ao recobrar os sentidos, viu-se imerso numa piscina ilíquida de insubstância incolor. Estava à deriva, pelo vácuo interespacial. Só tinham passado meia dezena de horas, mas poderiam ter sido dias. Tinha perdido a noção do Tempo. Desde que chegara à Pré-Mars, que aquela coisa de nunca haver claridade, e de, contudo, todos os corpos serem perfeitamente visíveis (à custa da luz que reflectiam), lhe fazia uma confusão imensa!

As referências espaciais eram ainda possíveis: na bola azul e branca, quinhentos ou seiscentos quilómetros mais abaixo, estava quem ele amava. Imaginou que fossem onze da noite e pensou em Lisa, a lavar os dentes! Um pouco mais para a direita, recordava-se ele do curso de "Construção Agravítica", estava Vénus. E ocorreu-lhe que poderia estar enganado! Nunca tinha sido muito esperto...

Um calafrio tão violento, que mais pareceu uma descarga eléctrica, abanou-o do capacete às botas. Pressionou "TALK" na bracelete de comunicações e berrou por ajuda!

De uma perspectiva exterior, poder-se-ia ver um homem inchado e vestido de branco, com uma espécie de pequeno aspirador às-costas. Um homem estacionário, em absoluto. Inerte. Aparentemente calmo. Da instalação sonora interna do capacete, não vinha aquele sopro habitual e habitualmente irritante! Como esse sopro seria agora bem vindo!

Porque o silêncio era inaceitável e assustador, descontrolou-se em gritos inúteis, até à incapacidade das suas cordas vocais.

Seguindo o modelo habitual da reacção ao infortúnio extremo, Arthur Finningan, meia órbita terrestre depois do seu acidente, viu-se espantosamente calmo. Tinha então tomado consciência da proximidade e inevitabilidade da sua morte.

Estava sozinho a um extremo inconcebível! O sistema de comunicações não respondia e as reservas de oxigénio asseguravam-lhe pouco mais de sessenta minutos de existência. Sabia que podia adiar ligeiramente o sufoco terminal, através de uma respiração económica; mas, só de pensar nisso, (auto)surpreendentemente, riu-se e deverá então ter abreviado o seu destino, em meio minuto. Rir é muito oxidante!

O Golfo do México tornou-se visível. Meses antes, ele tinha estado exactamente ali em baixo, em Cabo Canaveral, na Florida! Embora vivesse ‘fora de casa’ há quase um cento de dias, só naquele momento, o condenado achou incomparavelmente bela a vista terrestre, que dali se tinha! Era mesmo provável que houvesse quem não se importasse de morrer assim! Era uma sensação redutora: com um estímulo visual daqueles, com uma paz (solidão) circundante daquelas, tudo o resto parecia insignificante. Inclusivé a sua própria morte!

50 Ser egoísta nos seus momentos derradeiros, não pareceu nada ético a Arthur Finningan. Como poderia a sua morte nutrir-se de insignificância? Então e Lisa? E os seus pais? E mesmo o sacana do irmão? Era confortável e simultâneamente constrangedor pensar em todos eles, lamentando-lhe o desaparecimento... O conforto vinha da consciência de que era querido. O constrangimento vinha de achar conforto naquelas manifestações de dor.

40 Ia morrer sem ser pai. Era a mais definitiva das mortes, pensou.

Embora se tivesse afirmado como ateu toda a vida, começou a desejar que houvesse um Deus espantosamente miraculoso. Estava novamente inconformado com o seu fim! Não sabia porquê, mas a sua situação corrente - sozinho, condenado e mergulhado no vácuo -, parecia-lhe altamente merecedora de uma manifestação divina. Chorou e o capacete embaciou-se. Recobrou o controlo das emoções, acalmando-se por contemplação do seu planeta natal.

30 Que estupidez que tinha sido aquela zanga ‘matinal’ com Lisa! Que raio de nuvens negras lhe toldavam a clareza de raciocínio, nas ocasiões em que alinhava na génese de momentos de infelicidade! Porque não se tinha ele rido e bem-disposto, sempre que, ao invés, discutira e se entristecera? De que lhe tinha valido, alguma vez, estar triste ou zangado?

Já não pensava no que faria, caso tivesse hipótese de voltar a nascer. Pensava antes, no faria, caso pudesse voltar a ver Lisa...

20 Começou a sentir frio. A sua inércia custava-lhe temperatura. Se Lisa o pudesse abraçar! Se alguém o pudesse abraçar!

Ocorreu-lhe o celeiro dos avós, na Georgia, sufocadoramanete quente na Primavera e no Verão. E Annie! Que miúda fervente! Nos três anos em que Annie trabalhara para os Finningan, costumara espreitá-la, por entre fardos de palha. Annie alimentara-lhe dezenas de fantasias sexuais de adolescência. E mesmo agora, a centenas de quilómetros do estado da Georgia, o seu calor, com décadas de distância, conseguia ter algum efeito!

10 A luzinha vermelha, indicadora de que restavam menos de dez minutos de oxigénio, acendeu-se. Parecia ser única porcaria que ainda funcionava naquele fato!

Que caraças! Ia mesmo morrer! Se alguma rescue-ship (nave de assistência médica) andasse por ali, já deveria ser visível! Engoliu em seco. Porque não o encontrariam? Só porque o sistema de comunicações estava inoperacional? Que bosta de sistema de segurança! Não deveriam ter munido cada empregado de um sinalizador de presença? E a estúpida da gravidade? Porque não caía ele na Califórnia? Sabia de um fulano que tinha sobrevivido a um queda de doze andares de altura!

Voltou a rir-se.

5 Mictou. Era o seu último xixi, ocorreu-lhe.

Até os condenados à morte morriam acompanhados! Costumava haver o carrasco, o padre e alguns polícias.

Mas ele ia morrer sozinho! Voltava a inconformar-se!

4 Ao menos Lisa receberia um balúrdio do seu Seguro de Vida! Lisa...

3 Conhecera Lisa, graças a um acidente de automóvel. Tinha sido com aquele Plymouth inguiável! Como pôde aquela banheira passar em duas inspecções, sem que lhe detectassem a fadiga dos eixos?!

2 Arthur Finningan esbugalhou os olhos, e tentou abstraír-se de tudo, menos do seu elo de contacto com Lisa - a visão do planeta comum a ambos.

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0 O Jardim Escola. Aquelas ‘calças jardineiras’. O carrinho dos bombeiros. A colecção de banda desenhada. A Escola Primária... a miúda das tranças! Luz. A primeira bicicleta. O primeiro beijo na boca (por 1 dólar, à Kate Edwards). Aqueles anos no Canadá! Que anos maravilhosos! Os avós! A Georgia! Annie... como teria sido bom fazer amor com Annie! O Rodeo de Portland... Luz. Os seios da Morgan Flanders (gratuitos)... O acidente de mota... os anos de Liceu... Erica Simon, Julia Smith,... O acidente com o Plymouth,... Lisa! A primeira noite com Lisa... aquele mês em que o período dela atrasou... Luz. Marte. Cabo Canaveral. A comunicação da manhã...

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