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Eu, abaixo assinado - capa, da
primeira edição da Editorial Notícias.

João de Deus Pinheiro estreia-se
na prosa de ficção, aos 55 anos.
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Eu, abaixo assinado
(Opinião do livro de João de Deus Pinheiro)
Cresci afastado da literatura portuguesa e se reflectir no porquê desta
distância, começo por identificar as aulas de Português em que "estudei" algumas
obras de Camões, Eça de Queirós, e Fernando Pessoa. Porque será que estes
ilustres escritores, não me conseguiram cativar, tendo antes tido o efeito
contrário?
A resposta está na época. O mais recente dos escritores mencionados
(Pessoa), faleceu em 1935, isto é, há mais de seis décadas... Pior ainda é que,
exceptuando os "picantes" de Queirós, não há nada de actual nos seus
escritos. Camões passou uma vida a delirar sobre eventos que testemunhou
com um rigor que a poesia não deixa perceber objectivamente; Queirós
teve a (des)vantagem de ser alguém nascido e morrido no século XIX, sem
gosto pela ficção minimamente futurista, embora excepcional no retrato
do seu tempo; e Pessoa, com uma poesia dividida de Álvaro Campos a Ricardo
Reis, parece-me demasiado indirecto e até instável na qualidade. Mais
directo: só sei apreciar escritos de AGORA; não me agradam nem poesia,
nem prosa, de ONTEM. Se eu não ler HOJE as coisas de AGORA, vou perder
o MEU tempo.
Só me aproximei de autores portugueses, quando me liberteie da influência
asfixiante da disciplina de Português, do Ensino Secundário. Uma vez
liberto do peso do que era imposto e apresentado como excelente, o meu
compasso de auto-descoberta, levar-me-ia a António Lobo Antunes e, principalmente,
ao suplemento DN Jovem do Diário de Notícias, onde escreviam, e escrevem,
grandes valores, desagarrados de interesses, agarrados ao SEU tempo,
enérgicos no significado, mesmo quando imperfeitos na sintaxe e imaturos
nas ideias.
Ultimamente, sinto que algo mudou. Não sei precisar e não estou (agora)
para isso, mas creio que há mais autores portugueses a escreverem no
tempo de HOJE. António Lobo Antunes permanece o melhor exemplo, mas há surpresas...
e uma grande surpresa é João de Deus Pinheiro (JDP), que se estreia na
prosa ficcional em 2000, com o livro "Eu, abaixo assinado" (EAA).
EAA é um romance completamente centrado no dinheiro e nas influências
que balançam as relações inter-pessoais. Sendo escrito por alguém que
já foi Ministro (nos governos de Cavaco Silva), que foi reitor da Universidade
do Minho, que esteve envolvido em em centenas de conferências políticas
e científicas (JDP é licenciado em Engenharia Química), e que é agora
reitor da Universidade Moderna, depois de cargos na UE... enfim... só seria
de esperar uma obra muito inspirada nos eventos e nas gentes com quem
contactou... mas NÃO! STOP.
EAA *não* retrata ninguém nem nada de "real", repete algumas vezes JDP.
Ainda assim, é indiscutível a curiosidade da actual classe política portuguesa
pelo livro, tendo pessoas como Jorge Sampaio e Ferreira do Amaral (candidatos à Presidência),
comprado e requisitado autógrafo da obra, na própria cerimónia de lançamento.
EAA começa com Costa e com Tomé, com o primeiro a emprestar o dinheiro
que o segundo precisa, para comprar um táxi. Anos mais tarde, isto é,
poucas páginas depois, os amigos são sócios e homens muito ricos - dos
mais ricos de Leiria!
Até ao quarto capítulo, EAA centra-se em Leiria: tudo começa no Instituto
Politécnico da Cidade (IPL); tudo continua por lá, e muito a propósito
do IPL; mas, rapidamente, tudo começará a fugir primeiro para Lisboa...
depois para Bruxelas...
Os três capítulos iniciais de EAA são oscilantes na forma como (me)
agradam e nas semelhanças que invocam. Em exactamente 100 páginas, o
leitor confronta-se com uns 10 personagens MUITO relevantes, outros tantos
de pouco menor projecção, e para aí o dobro deles, que acontecem para
decorar a história. Só para se ter uma ideia da diversidade humana em
causa, temos gente empresária, políticos, académicos, médicos, presidentas
de Conselhos Directivos, raparigas castas até ao casamento, mulheres
condenadas à castidade por problemas físicos dos respectivos esposos,
jovens ricas que querem viver com o magro ordenado de professoras públicas,
fulanos da imprensa, Ministros, pessoas sérias, pessoas corruptas, pessoas
que só pendem para um lado, ou para outro, a 100 contos / hora; negócios
de milhões de contos, e... pois claro... o personagem principal, Alfredo
da Costa.
Alfredo da Costa é um académico que "quer construir o seu próprio nome" e
não ser simplesmente visto como o filho de Horácio da Costa, o homem
que com Tomé começou o "império" que basila o livro. Alfredo faz uma
carreira académica e envolve-se numa iniciativa de "ninho de PMEs" regionais,
não tendo ambição de ir mais além.
Mas há quem tenha ambição por Alfredo e, no fundo, EAA é a história
das consequências das acções dessas pessoas, na vida do personagem principal.
A quantidade de dinheiro que se prosa em EAA é enjoativa, de colossal;
entretanto, principalmente de início, as referências femininas, fazem
lembrar passagens de um Martin Amis, esforçado em reduzir as mulheres
a seios & vaginas, mas que - subitamente! - se transformam em sequências
qualitativamente eróticas e desintoxicantes. Também o jogo político se
rasga - e ainda bem! - do clássico "toma lá, dá cá", para um mais americanizado "dá cá,
se não levas lá"...
EAA é um livro RICO, muito rico. Passa-se hoje. Acontece agora. É agitado;
chega a ser sexual. Chega a ser podre e corrupto. Mas, acima de tudo, é diverso
- muito diverso! Basta referir que tem personagens de Alain Prost (!!)
a Alfredo da Costa...
Muito recomendado! Uma leitura de primeira!
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Eu, abaixo assinado - costas, da
primeira edição da Editorial Notícias.

O meu EAA. Devorado em poucos dias :).
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