22 October 2000 - previous October updates: 02 04 06 08 10 12 14 16 18 20 22 ; previous updates

1 - Zoid e Carmina dão o nó (casamento, sim)

António Silva aguarda a noiva. Nervoso? Só ele saberá, mas a aparência era a de grande calma.

O momento do casamento. Poucos minutos depois, a cerimónia terminaria. E eu seria expulso da Igreja, por uma senhora que queria fechar as portas.

Nuno Marques. Outrora piloto da APR; hoje 100% estudante.

Os próximos a casarem-se? Só ele e ela saberão.

Pedro Moreira fez um discurso simpático. Nada de chocante.

Zoid e Carmina dão o nó.

O Tó Zé e a Carmina casaram hoje. Muitos dos meus melhores amigos celebraram matrimónio nos últimos meses: a Bé & o Miguel, o Nuno & a Ana, o Miguel & a Cristina, o Gaspar & a Paula... e agora o Zoid. Da minha perspectiva, parece-me que de repente todos resolveram dar o passo que, por diversas vezes, em conversas adolescentes, nos parecia impossível.

Este dia 211000 começou na casa dos pais do António José. Dezenas de automóveis de convidados enchiam uma rua que devia ser de sentido único, mas que persiste ambivalente. O jardim-escola, logo em frente, estava vazio de crianças e o único foco de agitação era a sala de jantar do noivo, onde pessoas (des)conhecidas ingeriam um pequeno-almoço extra doce.

Rodeado de gravatas, desorientado por entre rostos aos quais nunca soube associar nomes, confuso pela novidade de estar naquele sítio sem a música esotérica a que o Tó Zé sempre sujeitava as visitas, e desconfortável pelas frases automáticas de quem não sabia, ouvia e via há demasiado tempo (para ser natural), resolvi procurar normalidade no exterior.

Poucos minutos mais tarde, estava na casa de Pedro Moreira, criatura complexa, classificável algures por entre as categorias de nómada, teólogo, terapeuta, confissor, confessado, e bom conversador, ainda que se tenha evaporado alguma pimenta. O Pedro e a Carla seriam a minha companhia na viagem até Coimbra.

Antes da partida, tive oportunidade de me entreter com o Paulo Nuno e com o Nélito - momento saudável, menos nostálgico do que as circunstâncias permitiam. Senti a ausência de outro amigo de infância e de adolescência - o Ricardo Rolinha, com quem até troquei correio-electrónico há poucas semanas.

Durante os minutos em que contemplei a rua e o bairro, imaginei todos aqueles carros dali para fora e o regresso dos meus múltiplos acidentes de bicicleta, que deverão ter acontecido, com menor e maior gravidade, a practicamente cada metro de asfalto disponível... Foram colisões com automóveis, foram quedas de motorizada, foram jogos de futebol no piso mais abrasivo e perigoso que se conhece, foram jogos de escondidas, jogos de hormonas, jogos de violência, jogos de virtuosismo, de estupidez, de camaradagem, e de genuína felicidade. Num espaço de um pouco mais de 1 quilómetro quadrado, terei vivido algumas das situações mais intensas que se podem viver, entre braços partidos, joelhos rasgados, lábios beijados, rostos socados, e amigos amuados.

Onde estão hoje o Henrique e o Pedro 40? Que é feito da Magda e da irmã; da Zaida, da Ana, e da Sandra, só para referir algumas das raparigas que - nunca hei-de perceber porquê - mais terão desejado o meu mal? :) Onde está a velhota que sempre teve um balde de água suja, pronto a arremessar à minha Órbita azul, de roda pequena?

Oopsss... chegava a altura de partir.

O trajecto até Coimbra foi pachorrento, mas perigoso. Fui perseguido por um VW (do casamento) que tinha um certo fetish pela minha chapa de matrícula posterior, insistindo em circular perigosamente perto do meu tubo de escape.

E depois aconteceram umas ruas sinuosas e confusas; umas descidas de inclinação criminosa, e - finalmente - uma belíssima quinta, com piscina e mais verde do que a selva Amazónica, dentro de poucos anos. Encontrei antigos vizinhos e ataquei na colecta de fotografias digitais.

Comeu-se (outra vez). Rico almoço. Repeti quase tudo. Rica mesa - conversas que me distrairam do frio e do suporte metálico que me restringia os movimentos das pernas.

O casamento propriamente dito, aconteceu depois de almoço. Foi um casamento pela Igreja Católica, em que as conversas do Sr. Padre até fizeram um mínimo de sentido, sem chocarem constantemente com o senso comum ou com o senso científico, embora o mesmo não possa ser dito de uma das leituras, por uma das convidadas, que se descontrolou a referir uma estranha forma de concepção, em que de uma costela, um humano fez outro... Coisa esquisita.

Igrejas? Na minha óptica, a religião é o exercício da falta de fé nas nossas próprias capacidades; sob uma capa de discursos dogmáticos e, mesmo assim, quase sempre contraditórios (não custaria nada reformar os dogmas para ganharem alguma solidez lógica). Obscurantismo. Lavagem cerebral. Retrocesso. E tudo da forma menos nobre possível: aquela em que tudo se justifica em nome alheio.

Numa perspectiva neutra, vazia de juízos institucionais, claro que foi um casamento belíssimo. Mas não por causa do espaço, nem por causa dos discursos ou das canções, mas tão somente porque estavam ali duas das pessoas mais importantes e mais merecedoras de tudo, que conheço: o António Silva e a Carmina.

Download vídeo do momento chave do casamento [105 KB ZIP de um ficheiro .MPG]

Nuno Silva fotografa-me. Mas eu ainda não vi a foto!

Paula & Gaspar. A coisa alta foi o meu melhor amigo de infância - estudámos sempre juntos, até ao Ciclo Preparatório.

Paulo Nuno. Cuidado com as suas declarações de impostos... nada escapa, em rigor, a esta criatura.

Propinas. Não resisti a esta fotografia de um dos edifícios ali próximos.

O discurso da costela. Nah, esse não convence ninguém. Ou convencerá?