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1 - "Começar a Aprender" (Artigo)

O Eniac (#1) - que, em 1945, precisava de ver substituidas milhares de válvulas/mês.

To outsource, or not to outsource? (#2) - ilustração furtada de "Les Voyeuses", de Jacques Monory (1965).

"Começar a Aprender" - Artigo

Está disponível um artigo de opinião, que é o meu comentário aos dois primeiros capítulos do livro "The Diversity, Complexity and Evolution of High Tech Capitalism", de Sten Thore. Este artigo foi escrito no contexto dos meus estudos para o grau de MsC on Engineering Policy and Management of Technology @ IN+ / Instituto Superior Técnico.

Segue-se a primeira metade do artigo. A versão integral está a partir de aqui... [PDF].

[...]

Em 1980, fiquei fascinado com um anúncio televisivo da Timex, que prometia «todo o poder do computador pessoal, agora ao seu alcance!», referindo-se a um electrodoméstico parecido com uma calculadora.
Literalmente da noite para o dia, os computadores deixavam de ser os gigantes psicadélicos das séries de Ficção Científica, e tornavam-se algo de concreto. Mas como era possível?
Hoje começo a perceber.

Os computadores são um produto emblemático da evolução do capitalismo económico: eles são uma tecnologia que viabiliza mercados crescentes em largura (quantidade, pela massificação) e em profundidade (qualidade, pela especialização), mas que só nasceu e cresceu, porque a pressão dos consumidores o autorizou.

Quando a procura de poder computacional se restringia a instituições militares e académicas, a oferta de hardware e software, acontecia ao sabor de necessidades relativamente homogéneas. Por exemplo, os IBM de 1950 para a Comissão de Energia Atómica dos EUA, faziam essencialmente o mesmo que o ENIAC de 1945, construido (e utilizado) na Universidade de Pennsylvania: a computação de trajectórias balísticas e projectos de armas atómicas.

À medida que o computador foi sendo percebido como uma ferramenta útil para a competitividade económica das empresas em geral, foi emergindo a apetência por soluções mais acessíveis, especializadas a cada contexto. Essas soluções contextuais dificilmente poderiam surgir de uma oferta com experiência estrita em clientes pouco diferenciados, e fazendo integração vertical da produção. O caso do ENIAC é extremo: com dezenas de toneladas de peso e a exigir uma manutenção que consistia na substituição de milhares de válvulas por mês, não só «ele» era fisicamente amovível da Moore School of Engineering, bem como só ali sabiam funcionar com «ele», e (ainda) ali não seria trivial mudar subitamente de projecto.
Também a IBM da década de 1960, então dominante no mercado de computadores mainframe, era essencialmente uma integradora, encarregando-se do hardware, do sistema operativo, do software aplicacional, e da manutenção do conjunto...
Esta forma de alocação de recursos humanos e materiais cobra um preço na agilidade da oferta, que não pode reagir a novas realidades de procura, com a celeridade de quem modularizar a produção, confiando em especialistas externos para cada etapa – outsourcing.

Na década de 1970, a menor flexibilidade do gigante IBM, permitiu que fabricantes como a Hewlett-Packard e a Digital, fossem mais lestos a identificar e a responder ao nicho dos mini-computadores, mais pequenos e menos «fechados». O produto «computador» diversificava-se e incorporava avidamente as inovações da Electrónica, que conseguia cada vez maior número de circuitos por unidade de área, em sinergia com a Física dos Materiais, num exemplo que destaca a complexidade crescente e a natureza hierárquica da incorporação de capital, na forma de conhecimentos interdisciplinares.

A invariância de certas etapas da produção electrónica, como a soldagem de elementos numa placa comum, cedo foi identificada como automatizável, em unidades fabris dedicadas, que com a diversificação do mercado, evoluiram de linhas de produção a la Henry Ford (vocacionadas para um só design) para instalações dinâmicas, capazes de imprimir qualquer desenho de circuito, de forma a responderem a diversos clientes, que assim foram sentindo (e exigindo) o desaparecimento de barreiras tecnológicas à sua criatividade.
Os benefícios das economias de escala, que pela produção de grandes quantidades diluem o preço unitário dos produtos até níveis compatíveis com a procura, vêm sendo aplicados a domínios sucessivamente mais refinados e descentralizadores: é preferível delegar em especialistas momentos particulares de uma produção modular, porque é natural que as expectativas da procura, mudem a uma velocidade, à qual se reage melhor assim, sob pena de um rival de mercado antecipar uma alternativa mais sintonizada com estes consumidores metamórficos.

[...]

Uma válvula (#3) - hoje menores, mais fiáveis e restritas ao hardware para áudio.

Um porta-aviões (#4) - a propósito dos cálculos de trajectórias balísticas. Ilustração furtada de "bande desinée et figuration narrative".